A história do Maracanã é bem conhecida pela maioria dos brasileiros. O Brasil teve o privilégio de sediar a primeira Copa do Mundo do pós-guerra e o ponto alto dessa organização foi a construção de um estádio novo, gigantesco, o Pacaembu e São Januário já não acomodavam a massa cada vez maior de apaixonados pelo futebol.
O Maracanã foi inaugurado em 16 de junho de 1950, com capacidade para 200 mil espectadores. Foi palco de cinco dos seis jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, incluindo a final do dia 16 de julho. Precisando apenas do empate, o Brasil perdeu por 2 a 1 para o Uruguai e terminou como vice-campeão, gerando uma onda de frustração por todo o país.
Passado o choque inicial, era chegada a hora de utilizar o Maracanã para o Campeonato Carioca. O Vasco era então o campeão da competição e, ainda por cima, invicto. O Expresso da Vitória estivera no auge de sua forma em 1949 e obtivera 18 vitórias e 84 gols em 20 jogos, numa campanha que até hoje detém o recorde de ter sido a melhor da história do futebol profissional carioca.
Mas em 1950 os jogadores vascaínos estavam abatidos. Também, pudera: nada menos do que oito jogadores (Barbosa, Augusto, Danilo, Ely, Ademir, Chico, Maneca e Alfredo II), e mais o treinador (Flavio Costa), haviam tomado parte na delegação brasileira derrotada em casa pelo Uruguai na Copa do Mundo.
Os torcedores rivais, com ajuda de parte da imprensa, tentaram explorar ao máximo o trauma da perda da Copa, a fim de prejudicar a equipe cruzmaltima. E quase conseguiram seu objetivo. O Vasco realmente teve um começo irregular e, só no primeiro turno, sofreu três derrotas (America, Fluminense e Botafogo), fato raro para um time reconhecidamente superior a todos os outros.
No entanto, à medida que a tristeza pela perda da Copa foi passando, o Vasco foi ganhando mais e mais confiança e voltou a ser o velho “Expresso” de outros tempos, goleando, no segundo turno, o Flamengo por 4 a 1 (e mantendo um tabu de 6 anos sem derrotas para o rival) e o Fluminense por 4 a 0.
Só que, mesmo atropelando os seus adversários um após o outro no segundo turno, o Expresso da Vitória só conseguiu alcançar a liderança na penúltima rodada, ao derrotar o Botafogo por 2 a 0. O Vasco ficou, então, um ponto à frente do America: 32 a 31. E, como a tabela marcava para a última rodada o jogo Vasco x America, uma vitória rubra poderia pôr a perder a brilhante recuperação da equipe vascaína.
E foi nessa situação que pisaram o gramado do Maracanã no dia 28 de janeiro de 1951 (por causa da Copa do Mundo, o Campeonato Carioca começou atrasado e só pôde ser concluído no ano seguinte) Vasco da Gama e America: ao America, só a vitória interessava para que conquistasse o seu sétimo título carioca; ao Vasco, um empate bastaria para conquistar o nono título carioca de sua história, o quarto em seis anos.
Mais de 100 mil pessoas foram ao Maracanã, (na época, chamado apenas de “Estádio Municipal”) naquele domingo, para acompanhar essa verdadeira decisão. O America tinha um ataque perigoso, conhecido como “tico-tico no fubá”. Outro ingrediente da decisão era um confronto entre dois irmãos: Ely do Amparo, do Vasco, e Osny do Amparo, do America.
O Vasco iniciou melhor e saiu na frente logo aos 4 minutos, com um gol de Ademir Menezes. O America empatou aos 40 minutos, por intermédio de Maneco. O primeiro tempo terminou com um empate por 1 a 1.
Foi no vestiário do Vasco, durante o intervalo, que ocorreu o fato que decidiu o campeonato. Ipojucan, atacante cruz-maltino, não se sabe por que motivo, estava reclamando de falta de ar e não queria de maneira alguma voltar para a etapa final. O técnico Flavio Costa, que conhecia muito bem seus jogadores, achou que o vascaíno estava fazendo corpo mole e mandou-o de volta a campo debaixo de tapas.
Anos depois, Flavio Costa explicou, em uma entrevista, como tudo aconteceu: “‘Eu levantei o Ipojucan no peito e dei-lhe duas bofetadas. Mas não foram bofetadas de agressão, não. Foram terapêuticas. E ele se apavorou e saiu correndo. Eu atrás dele: ‘Você vai entrar de qualquer maneira!’.”
A tática do comandante do Expresso da Vitória funcionou parcialmente. Se, por um lado, Ipojucan não jogou nada no segundo tempo, limitando-se a fazer número na ponta-direita, por outro lado foi dele o passe que resultou no gol da vitória do Vasco, de Ademir Menezes, aos 29 minutos.
Ainda aconteceu, no campo, uma briga que resultou na expulsão de dois jogadores de cada time pelo árbitro Carlos de Oliveira Monteiro (conhecido como “Tijolo”), aos 43 minutos: Ely e Laerte, do Vasco, e Osmar e Godofredo, do America.
A torcida do Vasco, no entanto, pouco ligou para a briga, pois já estava comemorando o título e homenageando Ademir Menezes (artilheiro do Carioca com 25 gols) com uma paródia de uma música do Carnaval de 1951:
“Oi zum-zum-zum zum-zum-zum-zum/ Vasco dois a um/ Ademir pegou a bola/ e desapareceu/ foi mais um campeonato/ que o Vasco venceu…”
Ficha Técnica
VASCO 2 X 1 AMERICA
Data: 28/01/1951 (domingo)
Local: Maracanã (Rio de Janeiro)
Árbitro: Carlos de Oliveira Monteiro, o “Tijolo”
Renda: Cr$ 1.577.014,00
Público: 104.775 (pagante); 121.765 (presente)
Gols: Ademir (VAS) 4/1T, Maneco (AME) 40/1T, Ademir (VAS) 29/2T
Expulsões: Laerte 43/2T (VAS), Ely 43/2T (VAS), Osmar 43/2T (AME), Godofredo 43/2T (AME)
VASCO: Barbosa; Augusto e Laerte; Ely, Danilo e Jorge; Alfredo, Ademir, Ipojucan, Maneca e Dejayr. Técnico: Flavio Costa.
AMERICA: Osny; Joel e Osmar; Rubens, Osvaldinho e Godofredo; Natalino, Maneco, Dimas, Ranulfo e Jorginho. Técnico: Delio Neves
Campanha
20/08/1950 – São Januário – Vasco 6 x 0 São Cristóvão – Maneca (2), Ipojucan (2), Ademir e Lima
27/08/1950 – Maracanã – Vasco 3 x 2 Bangu – Ademir (2) e Tesourinha
03/09/1950 – São Januário – Vasco 2 x 3 América – Maneca e Ademir
10/09/1950 – Leônidas da Silva – Vasco 4 x 0 Bonsucesso – Ademir (3) e Maneca
17/09/1950 – Rua Bariri – Vasco 3 x 1 Olaria – Ipojucan (2) e Lima
24/09/1950 – Maracanã – Vasco 2 x 1 Flamengo – Ademir e Alfredo II
01/10/1950 – Maracanã – Vasco 1 x 2 Fluminense – Ipojucan
08/10/1950 – Maracanã – Vasco 0 x 1 Botafogo
15/10/1950 – São Januário – Vasco 9 x 1 Madureira – Dejayr (4), Ademir (2), Alvaro (2) e Maneca
22/10/1950 – São Januário – Vasco 7 x 0 Canto do Rio – Ademir (2), Dejayr (2), Jansen, Maneca e Tesourinha
29/10/1950 – Figueira de Melo – Vasco 5 x 1 São Cristóvão – Dejayr (3), Ademir e Tesourinha
05/11/1950 – Conselheiro Galvão – Vasco 3 x 2 Madureira – Ademir (2) e Dejayr
19/11/1950 – São Januário – Vasco 4 x 0 Olaria – Ademir (3) e Alfredo II
26/11/1950 – Maracanã – Vasco 4 x 1 Flamengo – Ipojucan (3) e Alfredo II
10/12/1950 – São Januário Vasco 7 x 2 Bonsucesso – Ademir (3), Dejayr (3) e Maneca
17/12/1950 – Caio Martins – Vasco 4 x 2 Canto do Rio – Maneca (4)
31/12/1950 – Maracanã – Vasco 2 x 1 Bangu – Ipojucan e Maneca
06/01/1951 – Maracanã – Vasco 4 x 0 Fluminense – Ipojucan (3) e Ademir
14/01/1951 – Maracanã – Vasco 2 x 0 Botafogo – Maneca e Ademir
28/01/1951 – Maracanã – Vasco 2 x 1 América – Ademir (2)
Galeria
Fonte: NETVASCO (texto, ficha), Divulgação (foto), Jornal dos Sports (imagens), A Noite (imagens)
