Vasco é um dos clubes brasileiros com setor ‘Player Care’; saiba como funciona

Tébaro Schmidt explica o que é Player Care e quais clubes no Brasil investem nisso; veja

No Cruzeiro, quando um novo jogador acerta o que tem que acertar com a diretoria e começa a arrumar as malas a caminho de Belo Horizonte, é a vez de João Pedro Mendes entrar em cena. Ele é um dos primeiros funcionários do clube a estabelecer contato com o reforço – o início de uma relação que se torna assídua até o primeiro mês de adaptação, pelo menos.

João cuida dos pormenores para definir onde o jogador vai morar, se vai alugar ou comprar um carro, onde os filhos vão estudar, em qual hospital a esposa grávida fará exames, quem vai cuidar do cachorro e qualquer outra demanda que não tenha relação com campo e bola. Ele é o Player Care do Cruzeiro.

– Acho que, tendo essa segurança de que o clube também está apoiando a família na parte fora do campo, o atleta se tranquiliza. E isso faz com que ele fique completamente focado no jogo – resumiu João Pedro.

No Brasil, o Cruzeiro é pioneiro no assunto: foi um dos primeiros clubes a centralizar as demandas em um funcionário destacado exclusivamente para isso e, dessa forma, oferecer um apoio integral aos jogadores e suas famílias. O setor de Player Care foi criado em 2022, depois que Ronaldo comprou a SAF cruzeirense. João Pedro está há dois anos na função.

Essa é uma prática comum há bastante tempo no futebol europeu. Na Premier League, por exemplo, as equipes são obrigadas desde a temporada 2022/23 a ter ao menos um membro do estafe responsável pelo cuidado extracampo dos jogadores.

Hugo Scheckter, especialista no assunto e fundador da “The Player Care Group”, estima que os clubes britânicos passaram a economizar 3,5 milhões de euros (R$ 18 milhões) todos os anos dessa forma. O cálculo considera uma queda de 15% nas chamadas “transferências fracassadas”, de acordo com uma publicação dele no mês passado.

– Não estou dizendo que o Player Care previne o fracasso nas transferências, não é isso. Mas claramente vale a pena investir em qualquer suporte que podemos oferecer para reduzir as chances de fracasso – explicou o especialista.

No futebol brasileiro, o Bragantino inaugurou seu setor de Player Care este mês. E a CBF Academy acabou de incluir o tema no seu curso de formação para executivos, com a primeira aula ministrada em março por Leandro Amorim, ex-coordenador do Player Care do Vasco.

Como se trata de um assunto relativamente novo, os clubes ainda tateiam no escuro em busca de referências e se baseiam muito no que é feito lá fora.

Quais clubes têm Player Care?

A equipe de reportagem do ge procurou os 20 clubes que disputam a Série A do Brasileirão para saber quais têm ao menos um funcionário dedicado exclusivamente ao Player Care. O Corinthians foi o único que não respondeu.

Oito equipes disseram que têm: Bahia, Cruzeiro, Coritiba, Atlético-MG, Vasco, Bragantino, Santos e Botafogo.

Isso de forma alguma quer dizer que as outras equipes não investem no cuidado com os seus atletas. Atual campeão brasileiro e da Libertadores, o Flamengo terceiriza parte desse processo, por exemplo. Palmeiras e São Paulo distribuem as atribuições relacionadas ao cuidado e adaptação dos jogadores entre outras áreas do departamento de futebol.

O Fluminense conta com cinco assistentes sociais que estreitam o contato com a família, o Athletico tem um departamento de desenvolvimento humano que presta serviço parecido aos atletas e o Vitória direciona essas demandas a uma pessoa do setor de recursos humanos. Já o Inter criou um processo de acompanhamento aos recém-chegados e centraliza as informações com um funcionário, que acumula outras funções, no entanto.

Coordenador dos cursos da CBF Academy e entusiasta da cultura do Player Care, Luís Fernando Pessôa acredita que existe uma diferença grande quando a responsabilidade de prestar apoio extracampo ao atleta é diluída entre diferentes setores do clube.

– Antigamente tinha o Papai Joel, o Telê Santana, essas figuras que conversavam e se aproximavam dos atletas. Hoje o técnico está focado no resultado desportivo e não tem mais tempo para isso. Há um tempo atrás, então, essa função era do técnico paizão, da área do RH, da logística, mas não tinha esse tratamento integral do atleta, essa coisa de olhar o ecossistema dele todo. A família, onde ele se posiciona na cidade, colégio dos filhos, ele aprender uma língua – explicou ele ao ge.

– Esse tipo de tratamento tem uma complexidade completamente diferente quando é dividida dentro de outros departamentos. Esse departamento (Player Care) está criando uma unidade própria e abraçando alguns pontos que ficavam compartilhados ou em um apêndice dentro de cada departamento. Quem faz isso está economizando ou ainda não enxergou a importância do departamento – completou.

Dos oito clubes brasileiros com Player Care, cinco são SAF’s. No Botafogo, a função é denominada “liaison” (“ligação” em francês) e se baseia no modelo do Lyon, time que integra a rede multiclubes de John Textor. O Vasco inaugurou o setor na curta gestão do executivo Pedro Martins, entre maio e julho de 2024 – o presidente Pedrinho manteve e ampliou a estrutura.

O Santos deu o pontapé inicial no serviço em setembro de 2025 e destacou uma funcionária para acolher “os novos colaboradores e seus familiares, de forma a auxiliá-los na ambientação à cidade e ao clube”, de acordo com o comunicado na ocasião. Já o Atlético-MG informou ao ge que tem seis profissionais de Player Care à disposição dos seus atletas: três na base e três no profissional.

“É muito dinheiro em jogo”

O futebol brasileiro vive um momento de predominância desportiva (com o título de todas as edições da Libertadores desde 2019) e financeira (com investimento superior a R$ 1 bilhão nas últimas cinco janelas de transferências) sobre o continente jamais visto antes.

A contratação mais cara da história é sempre a próxima. Neste momento, o posto pertence a Lucas Paquetá, por quem o Flamengo pagou 42 milhões de euros (R$ 260 milhões) em janeiro.

Na esteira desse contexto, alguns clubes entendem que não podem mais se dar o luxo de desvalorizar seus ativos e correr o risco de perder jogadores que custaram uma fortuna por demora na adaptação – seja dele ou da família. Jogar luz sobre a importância do Player Care no Brasil é uma das metas de Leandro Amorim, que saiu do Vasco no mês passado.

– Eu quero que os clubes tenham consciência disso. Que as diretorias entendam: o cuidado com o atleta é fundamental. A gente paga muito dinheiro nesses caras, é muito dinheiro em jogo. O mínimo possível é um cuidado extra, nada demais. Para o clube é uma coisa irrisória – acredita ele.

“O Player Care é um microrganismo ali dentro que, em conjunto, não tem como as coisas não acontecerem”, completa Leandro Amorim.

Luís Fernando Pessôa acrescenta:

– Os atletas hoje são muito caros. Então tem que criar Player Care para dar um suporte integral. Tem que trabalhar a causa e não a consequência. Quando você dá um suporte integral, você acelera a adaptação dele para focar no campo.

Tudo que faz um Player Care

Nos clubes que dispõem do setor, como já foi dito, o Player Care é crucial na adaptação dos jogadores recém-chegados. Em especial, dos estrangeiros. Por vezes, esse profissional passa a ser uma referência e principal ponto de apoio do atleta no novo país.

Mas o trabalho do Player Care vai além disso. Essas são algumas funções que costumam competir ao departamento:

  • Estimular o desenvolvimento dos jovens atletas, em transição da base para o profissional, com direcionamento a cursos de idiomas, assessoria financeira e gestão de carreira, por exemplo.
  • Preparação do pós-carreira do atleta, com indicação de cursos e auxílio na formulação de planos para o momento em que ele pendurar as chuteiras.
  • Filtrar e promover relação com prestadores de serviço que cercam os atletas e familiares para evitar problemas, como superfaturamento.
  • Servir como ponto de apoio do atleta, também, no momento da saída do clube. E auxiliar com burocracias como devolução de carros e casas.

No Cruzeiro, João Pedro Mendes conta que a parte mais prazerosa do seu trabalho é organizar a entrada dos filhos com os jogadores como “mascotinhos” nos jogos.

– Tem filho de atleta que eu já me considero amigo, somos bem próximos. E os mais novinhos, os bebês, hoje eles já me reconhecem, já associam a minha pessoa a esse momento, que pra eles é muito legal. Quando eu chego no camarote ou onde vou buscar as crianças, eles já demonstram essa alegria de me ver porque sabem que vão entrar no momento que pra eles é muito legal, para o pai é muito especial – revela ele.

– A gente tem alguns atletas que entram com os filhos todos os jogos, eu vejo que pra eles esse é um momento de proximidade com o filho. Por causa da rotina do futebol, talvez ele seja mais distante, então estar ali naquele momento é um reforço emocional pra eles. Isso me satisfaz, é uma coisa que eu acho muito divertido no meu trabalho, reconhecer o quanto uma família é tão importante para o atleta – concluiu João.

A reportagem do ge ouviu sobre o caso de um jogador de renome no futebol brasileiro cujos pais decidiram parar de ir aos jogos depois que presenciaram a torcida vaiando e hostilizando o filho. Esse jogador sentia a ausência da família.

O Player Care do clube entrou no circuito no sentido de convencer os pais sobre a importância da presença deles nas partidas, e eles voltaram a frequentar o estádio aproximadamente um ano depois. O clube avalia que o jogador, em seguida, subiu de produção.

– O Player Care tem que ser um cara de confiança e de muita sensibilidade. Não dá pra pensar em botar alguém curioso no assunto – resume Luís Fernando Pessôa.

Após choque de cabeça, médico do Vasco não deixa Robert Renan ficar em campo

Em outubro do ano passado, Robert Renan sofreu forte concussão no clássico entre Flamengo e Vasco pelo Brasileirão, e as imagens do zagueiro desorientado e confuso em campo assustaram a todos. Em especial, a sua família, que não estava no Maracanã. O desespero da esposa e amigos só foi amenizado por causa da atuação do Player Care, que acompanhou o atendimento no vestiário, seguiu até o hospital e foi alimentando os familiares de informações para tranquilizá-los.

– A gente foi passando as primeiras informações para a família de imediato, antes da TV falar alguma coisa. Depois, no dia seguinte, eles me ligaram e agradeceram muito pelo quanto eles se sentiram bem tratados e pelo nível de profissionalismo e cuidado que eles não costumam ver em outros lugares. Eles estão longe, mas se sentem seguros – contou Leandro Amorim.

No Vasco, o Player Care também contribui na blindagem do vestiário em dias de jogo.

– Acabou a preleção, geralmente o atleta fica com o celular na mão. Uma das coisas que a gente definiu era “qualquer problema, liga para o Player Care”. Isso não pode chegar no atleta. Tudo que acontecia de problema externo a ideia era não chegar no atleta. Fulano está vindo para o jogo e bateu o carro. Vai ligar para o atleta? Não, não vai falar nada com ele. A gente resolve, dá um jeito. No final do jogo vai conversar com ele – disse Leandro.

Além disso, o Player Care do Vasco criou um espaço em São Januário onde familiares e amigos ficam reunidos, com comida, atividades e conforto, enquanto aguardam a saída dos jogadores do estádio. O espaço fica no ginásio situado ao lado do vestiário. O clube acredita que, dessa forma, incentiva a criação de vínculos e construção do ciclo social entre as famílias. Veja imagens do espaço:

Fonte: ge